Em busca de Sentido - Victor Frankl
Atualizado: 7 de ago.

Falar em ressignificar a dor costuma gerar desconforto. Muitas pessoas entendem o termo como uma tentativa de suavizar o sofrimento, espiritualizá-lo ou revesti-lo de uma positividade artificial. No entanto, a proposta de Viktor Frankl caminha em direção oposta. Ressignificar não é maquiar a dor; é encará-la de frente e decidir o que ela significará dentro da própria história.
Frankl não escreveu a partir de um lugar teórico confortável. Sobreviveu a campos de concentração e perdeu quase toda a família no Holocausto. Sua reflexão nasce de uma experiência concreta de sofrimento extremo. Em Em Busca de Sentido, ele não propõe minimizar a dor, racionalizá-la ou adotar um discurso de “pensamento positivo”. Ao contrário, parte de uma premissa existencial clara: há sofrimentos inevitáveis, e negar essa realidade não nos torna mais fortes — apenas mais alienados.
A distinção central que ele estabelece é entre dor inevitável e sofrimento vazio de sentido. A dor, em certas circunstâncias, é inescapável. Perdas acontecem, doenças surgem, limitações existem, injustiças atravessam trajetórias. O que permanece como possibilidade humana é a postura diante disso. Quando o sofrimento encontra um sentido, ele deixa de ser apenas destrutivo e pode tornar-se transformador. Não porque deixa de doer, mas porque passa a ter direção.
Esse processo exige autoconsciência. Não se trata de anestesiar-se existencialmente, nem de terceirizar a responsabilidade pelo significado da própria vida. A logoterapia parte da ideia de que o ser humano conserva uma liberdade interior, mesmo quando as condições externas são restritivas. Essa liberdade não é absoluta, mas é suficiente para escolher a atitude. E isso implica reconhecer a dor, não fugir dela, não encobri-la com justificativas superficiais.
Hoje, no entanto, a palavra “ressignificar” tornou-se quase um mantra. Ela foi amplamente absorvida no campo da Psicologia contemporânea — muitas vezes de forma superficial. Em alguns contextos, ressignificar passou a significar “pensar diferente rapidamente”, “encontrar o lado bom”, “tirar uma lição positiva” antes mesmo de atravessar a experiência emocional. E esse uso distorcido pode se tornar perigoso. Porque, ao apressar a mudança de significado, o paciente pode ser incentivado a não encarar a dor de fato.
Ressignificação não é atalhos cognitivos. Não é reformulação apressada. Não é forçar uma narrativa otimista para reduzir desconforto. Quando usada como técnica defensiva, ela vira evitamento sofisticado. E evitamento não integra — apenas adia.
Vivemos, inclusive, em uma sociedade que tem dificuldade crescente em sustentar verdades duras. Preferimos discursos acolhedores, frases motivacionais e soluções rápidas. Passa-se a mão na cabeça, valida-se tudo indiscriminadamente, evita-se confronto. A dor é reconhecida, mas raramente é aprofundada. Busca-se felicidade a qualquer custo — mesmo que isso implique ignorar a realidade. Só que felicidade construída à custa da verdade é frágil. Não se sustenta quando o sofrimento retorna.
Dar “uma nova cara” à dor, em termos técnicos, não é maquiagem emocional. É integração. É incluir o sofrimento na narrativa pessoal sem permitir que ele se torne o único capítulo. Frankl descreve três vias para encontrar sentido: os valores criativos (aquilo que faço), os valores vivenciais (aquilo que experimento, amo e contemplo) e os valores de atitude (a forma como me posiciono diante do inevitável). Quando não posso mudar a situação, ainda posso escolher como me posicionar diante dela. Essa escolha não elimina a dor, mas altera sua significação existencial.
Há também um cuidado essencial: ressignificar não é romantizar sofrimento, justificar violência ou aceitar passivamente abuso. Sofrimentos evitáveis devem ser combatidos. Injustiças precisam ser enfrentadas. A logoterapia distingue entre aquilo que pode e deve ser eliminado e aquilo que, sendo inevitável, pode ser transformado interiormente. Confundir essas dimensões gera culpabilização indevida e distorções éticas.
Encarar a dor como responsabilidade existencial não significa assumir culpa pelo que aconteceu. Significa assumir responsabilidade pelo que farei com o que aconteceu. Fugir pode levar ao vazio, à sensação de absurdo permanente. Enfrentar, ainda que com medo, abre espaço para amadurecimento, ampliação de consciência e fortalecimento de identidade. Frankl sustenta que o ser humano pode transformar uma tragédia em triunfo pessoal — mas isso exige confronto responsável, não negação.
Ressignificar, portanto, não é suavizar a verdade. É suportá-la. É permitir-se sentir, compreender, elaborar e, somente depois, integrar. Não escolhemos tudo o que nos acontece. Mas podemos escolher se vamos anestesiar a dor ou atravessá-la com lucidez. E talvez essa seja a verdade que menos queremos escutar: a felicidade não nasce da fuga da realidade, mas da coragem de enfrentá-la.
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